ORELHA E OUVIDO
Agradecimentos especiais ao Prof. Joffre M. de Rezende pela autorização para a reprodução do texto publicado no livro Linguagem Médica, 3a. ed., da AB Editora e Distribuidora de Livros Ltda. Autor: Joffre M. de Rezende. Atualizado em 10/09/2004.
Conforme se encontra em várias fontes, ambos os termos provêm do latim; orelha, de
auris, que designa o órgão da audição, e ouvido, de
auditus, particípio perfeito do verbo
audio,
audire, ouvir, escutar.
Por via do latim vulgar, o diminutivo de
auris,
auricula, evoluiu para
oricla, de que resultou
orelha, em português;
oreja, em espanhol;
oricchia, em italiano, e
oreille, em francês.
A forma verbal
auditus, ouvido, foi substantivada para indicar a faculdade de perceber os sons, ou seja, o sentido da audição. O substantivo evoluiu para
ouvido em português;
oído, em espanhol;
udito, em italiano, e
ouie, em francês.
Os compostos relacionados com o órgão da audição na terminologia médica, no entanto, não procedem do latim
auris e sim do radical grego equivalente
ous,
otós, como em otite, otalgia, otoesclerose, otorréia etc.
O uso de
orelha para designar o aparelho auditivo é bem antigo na língua portuguesa. Já em Camões, no canto 9, estância 9, de
OsLusíadas, encontramos:
"Esta fama, as orelhas penetrando
Do sábio capitão com brevidade..." (1)
Na literatura clássica dos séculos seguintes há muitos exemplos semelhantes (2, 3).
Também na linguagem médica,
orelha tanto designa o pavilhão auricular como o aparelho auditivo em sua integralidade.
Na
Nomina Anatomica aprovada no Congresso de Anatomia realizado em 1935, em Jena, na Alemanha, e conhecida pela sigla
JNA, o aparelho auditivo foi dividido em duas partes:
auris interna e
auris externa (4). Posteriormente, a auris interna foi desdobrada em auris media, que corresponde à caixa do tímpano, e auris interna, que corresponde ao labirinto.
Na tradução para a língua portuguesa da
Nomina Anatomica aprovada no Congresso Internacional de Anatomia realizado em Paris, em 1955, e conhecida pela sigla
PNA, o órgão da audição já aparece com a nova denominação de
Órgão vestíbulococlear e dividido em três partes:
orelha interna, orelha média e
orelha externa. Os ossículos situados na orelha média (estribo, bigorna e martelo), no entanto, são denominados
ossículos do ouvido. Na
orelha externa inclui-se o pavilhão auricular com a designação de
orelha seguida da palavra
pavilhão entre parênteses. Esta tradução foi realizada por uma Comissão composta dos eminentes professores Paulo Mangabeira Albernaz, Álvaro Fróes da Fonseca e Renato Locchi (5).
Na tradução publicada em 1978, sob a coordenação do Prof. Idel Becker e baseada na
PNA com as modificações introduzidas até 1975, optou-se pela denominação de
ouvido em lugar de
orelha para indicar o órgão da audição como um todo:
ouvido interno, ouvido médio e
ouvido externo. Fazendo parte do
ouvido externo figura a
orelha, com uma nota explicativa ao pé da página, de que "alguns dizem 'pavilhão da orelha' ou, tão só, pavilhão."(6)
Na tradução da 5a. edição da
Nomina Anatomica, aprovada no 11º Congresso Internacional de Anatomistas, realizado em 1980 na cidade do México, voltou-se a empregar
orelha interna, orelha média e
orelha externa, esta última subdividida em
meato acústico externo e
orelha (
pavilhão). Os ossículos da
orelha média passaram a ser designados por
ossículos da audição (
auditivos).(7)
Finalmente, na última edição da
Nomina Anatomica, que mudou de nome, passando a chamar-se
Terminologia Anatomica, inverteu-se a seqüência das
partes, colocando-se em primeiro lugar a
orelha externa, seguida da
orelha média e da
orelha interna. Na sua tradução para a língua portuguesa, publicada pela Sociedade Brasileira de Anatomia em 2001, usa-se
orelha para designar tanto o órgão da audição em sua totalidade, como a parte visível e externa que corresponde ao pavilhão auricular.
Em Portugal, ao contrário da nomenclatura adotada pela Sociedade Brasileira de Anatomia, mantém-se a denominação de
ouvido em lugar orelha para o órgão da audição. É de se lamentar que não haja uniformidade na terminologia médica dos dois países.
Entre os eruditos, tanto nas hostes literárias como científicas, o tema tem motivado disputas acirradas, como a que ocorreu por volta de 1920 na Faculdade de Medicina da Bahia, narrada por Mangabeira-Albernaz (3).
Durante o concurso do eminente anatomista, Prof. Fróes da Fonseca, este foi muito criticado por um dos examinadores, Prof. Adeodato de Souza, por empregar
orelha em lugar de
ouvido ao referir-se ao órgão da audição. O termo
orelha foi acoimado de galicismo pelo examinador, ao que o examinando retrucou e argumentou que orelha é tão bom português como
ouvido.
Após o concurso, a polêmica se estendeu a outros professores e letrados, com partidários de um e de outro dos contendores. A disputa motivou um estudo filológico, extenso e erudito de autoria de Ernesto Carneiro Ribeiro Filho, no qual o autor procurou demonstrar a origem comum de ambos os termos e a impossibilidade de atribuir-lhe significados diferentes (9).
Os dicionários gerais mais recentes não são concordantes na conceituação de
orelha e
ouvido.
Silveira Bueno define
orelha como a "parte externa do ouvido" e
ouvido como "órgão auditivo" (10).
No dicionário de Aulete-Garcia encontramos a explicação de que a
orelha é "órgão do ouvido, aparelho situado de cada lado da cabeça e que no homem consta de três partes que são o ouvido externo ou pavilhão; o ouvido médio ou tímpano, e o ouvido interno ou labirinto", enquanto
ouvido é "um dos cinco sentidos pelo qual se percebem os sons e cujo órgão exterior é a orelha" (11).
No
Aurélio século XXI há duas acepções para orelha e duas para ouvido.
Orelha: "Cada uma das duas conchas auditivas situadas nas partes laterais da cabeça e pertencentes ao
ouvido. 2. Órgão da audição; ouvido."
Ouvido: 1. "Faculdade de ouvir, de perceber os sons. 2.Cada um dos conjuntos de formações anatômicas responsáveis pelo sentido da audição e do equilíbrio" 12).
No
Michaelis há duas acepções para
orelha: 1."Pavilhão do ouvido, expansão de pele sustentada por uma cartilagem que cerca a abertura externa do conduto auditivo. 2. O ouvido ou sentido próprio para percepção dos sons".
Ouvido, por sua vez, é definido como "órgão e sentido da audição; orelha" (13).
Francisco Borba, em seu
Dicionário de usos do português do Brasil atribui um duplo significado, tanto para
orelha como para
ouvido.
Orelha designa tanto o "órgão da audição" como o "pavilhão do ouvido".
Ouvido, por sua vez, é igualmente "órgão da audição", sinônimo de
orelha, bem como a "parte interior do aparelho auditivo." (14)
No léxico de Houaiss-Villard há três acepções para
orelha e duas para
ouvido.
Orelha: 1. "
Anat. Hum. órgão da audição que possui três partes (externa, média e interna) [Anteriormente denominada ouvidos]. 2. parte mais externa e cartilaginosa da orelha em forma de concha; pavilhão auricular. 3. sensibilidade para perceber os sons; ouvido."
Ouvido: 1. "sentido pelo qual se percebem os sons. 2. Órgão da audição e de equilíbrio dos vertebrados", com a ressalva de que para a anatomia humana "o termo oficialmente adotado é orelha." (15)
A Academia das Ciências de Lisboa considera
orelha a "parte externa e visível do aparelho auditivo dos mamíferos, que se situa de cada lado da cabeça e que, no homem, apresenta forma de concha" e atribui a
ouvido duas acepções: 1. "Um dos cinco sentidos, que permite perceber os sons. 2. Cada um dos dois conjuntos de formações anatômicas que constituem o aparelho auditivo". (16)
Nos dicionários especializados em termos médicos, as interpretações também não são coincidentes.
Plácido Barbosa, em seu
Dicionário de terminologia médica portuguesa escreve: "Orelha: aparelho anatômico dos animais que serve à percepção dos sons, órgão do sentido do ouvido. Chamar orelha somente ao pavilhão e dizer-se ouvido externo, ouvido interno, ouvido médio é incorreção de linguagem". "Ouvido é aquele dos cinco sentidos pelo qual percebem-se os sons e tem por órgão a orelha e é injustificável a sua sinonímia com orelha na linguagem técnica". (17)
Pedro Pinto estabelece dois significados para
orelha: 1. "pavilhão do ouvido. 2. aparelho anatômico para a percepção dos sons; ouvido". E conclui " Rigorosamente orelha não é sinônimo de ouvido, mas em bons escritores vê-se orelha como ouvido". Define
ouvido como "órgão ou reunião de órgãos da audição". (18)
Para Paciornik
orelha é somente a "parte exterior do ouvido", enquanto
ouvido tem um duplo significado: o "sentido pelo qual se percebem os sons" e o "órgão ou aparelho da audição". (19)
No mais atualizado dos dicionários de termos médicos, que é o de Luis Rey,
orelha e
ouvido são considerados sinônimos (20).
No sentido de averiguar como estariam sendo usados os dois termos na atualidade na linguagem médica, procedemos a uma consulta aos arquivos da BIREME e encontramos o registro de 639 ocorrências para
orelha e 642 para
ouvido. Restringindo o levantamento somente aos títulos dos artigos indexados, a proporção foi de 41 para
orelha e 40 para
ouvido, o que corresponde a 50% para cada um dos termos.
Em espanhol, entretanto, o resultado foi muito diverso, indicando um predomínio de
oído sobre
oreja na proporção de 18:1 nos textos e 10:1 nos títulos dos artigos indexados, o que demonstra a preferência dos autores de língua espanhola por
oído em relação a
oreja (21).
Vemos que a dubiedade entre os dois termos vem desde o latim, o que levou vários autores a considerá-los sinônimos .
É sabido que não há sinônimos perfeitos e que palavras com a mesma denotação semântica podem ter conotações diferentes. Embora na linguagem médica
orelha e
ouvido possam ser intercambiáveis, na linguagem comum a percepção instintiva do povo sabe quando empregar uma e outra, usando
orelha de preferência quando se refere à parte externa do órgão auditivo e
ouvido quando se trata da parte interna ou do sentido da audição.
Nos brocardos populares é nítida esta distinção, como se observa nos seguintes ditados e expressões: "puxar a orelha", "com as orelhas ardendo", "de orelha em pé", "com a pulga atrás da orelha", "espírito santo de orelha", "entra por um ouvido e sai por outro", "as paredes têm ouvido", "ouvido de tuberculoso", "dar ouvidos", "ter bom ouvido", "dor de ouvido" e outras similares.
Em que pese à decisão da Sociedade Brasileira de Anatomia de adotar a denominação de
orelha, tanto para o pavilhão auricular, como para o órgão auditivo como um todo, parece-me mais racional a nomenclatura usada em Portugal, na qual se utiliza
orelha somente para a parte externa e visível, e
ouvido para a parte interna e o sentido da audição.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. CAMÕES, L. - Obras completas. Porto, Lello , Irmão, 1970, p. 1.340
2. ADRIÃO, P. - Tradições clássicas da Língua Portuguesa. Porto Alegre, J. Pereira da Silva, 1945, p. 57.
3. MANGABEIRA-ALBERNAZ, P. - Questões de linguagem médica. Rio de Janeiro, Liv. Atheneu, 1944, p. 79-101.
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5. MANGABEIRA ALBERNAZ, P., FROES DA FONSECA, A., LOCCHI, R.. - Nomina Anatomica. Arq. Cir. Clin. e Experim., 24:1-101, 1961.
6. BECKER, I. - Nomenclatura anatômica da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Ed. Guanabara Koogan, S.A., 1977.
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9. RIBEIRO FILHO, E. C.. Orelha e ouvido. Rev. Língua Portuguesa, ano II, n. 8, p.37-44, nov. 1920
10. BUENO, F.S. - Grande dicionário etimológico-prosódico da língua portuguesa. São Paulo, Ed. Saraiva, 1963.
11. AULETE, F.J.C., GARCIA, H, - Dicionário contemporâneo da língua portuguesa, 3.ed. Rio de Janeiro, Ed. Delta, 1980.
12. FERREIRA, A.B.H. - Novo dicionário da língua portuguesa, 3.ed. Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1999.
13. MICHAELIS - Moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo, Cia. Melhoramentos, 1998.
14. BORBA, F.S. - Dicionário de usos do português do Brasil. São Paulo, Editora Ática, 2002.
15. HOUAISS, A., VILLAR, M.S. - Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001
16. ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA - Dicionário da língua portuguesa contemporânea. Lisboa, Ed. Verbo, 2001.
17. BARBOSA, P. - Dicionário de terminologia médica portuguesa. Rio de Janeiro, Liv. Francisco Alves, 1917.
18. PINTO, P.A. - Dicionário de termos médicos, 8. ed. Rio de Janeiro, Ed. Científica, 1962.
19. PACIORNIK, R. - Dicionário médico, 2.ed. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 1975.
20. REY, L.. Dicionário de termos técnicos de medicina e saúde. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan S.A., 1999.
21. BIREME - Internet. Disponível em http://bases.bireme.br/ em 05/08/2003.
Agradecimentos especiais ao Prof. Joffre M. de Rezende pela autorização para a reprodução do texto publicado no livro Linguagem Médica, 3a. ed., da AB Editora e Distribuidora de Livros Ltda. Autor: Joffre M. de Rezende. Atualizado em 10/09/2004.
1. Professor Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás. Membro da Sociedade Brasileira e da Sociedade Internacional de História da Medicina. Editor da Revista Goiana de Medicina, de 1955 a 1990. Responsável pela Seção "Linguagem Médica" da Revista de Patologia Tropical, do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública da Universidade Federal de Goiás.