Avaliação etiológica dos respiradores bucais relacionados a idade e sexo no Ambulatório Escola da Faculdade de Medicina de Petrópolis - RJ
Ethiological evaluation of oral breathing related to age and gender in the Faculty of Medicine of Petrópolis' School Ambulatory
INTRODUÇÃO
A respiração é um dos principais processos responsáveis para manutenção da homeostase. Assim, a chegada de ar aos pulmões, em qualidade e quantidade ideais, é fundamental para sua realização. Fisiologicamente o ar deve ser inspirado pelo nariz, sofrendo umidificação, aquecimento e filtração, garantindo de forma satisfatória, ar nos pulmões.
A respiração bucal é definida como um desvio do padrão de respiração nasal normal, sendo esta, por vezes, insuficiente; normalmente associada com transtornos obstrutivos das vias de passagem nasais e, portanto, passa a ser substituída pela suplência bucal ou mista.
As etiologias envolvendo os respiradores bucais variam desde predisposição anatômica (passagem aérea estreita) até obstrução física, dentre elas temos: Hipertrofia das Adenóides, Hipertrofia das Amígdalas, Obesidade, alterações no septo nasal, Rinite alérgica, Pólipos Nasais.
Uma obstrução prolongada traz como conseqüências, além do desequilíbrio quantitativo e qualitativo do ar nos pulmões, o surgimento de alterações anatômicas desfavoráveis no complexo craniofacial, ocasionando inúmeras modificações funcionais, com grandes prejuízos para a qualidade de vida dos respiradores bucais.
Dessa maneira, procuramos relacionar, por técnicas comparativas, a prevalência das principais etiologias dos respiradores bucais, encontradas em nosso Ambulatório Escola da Faculdade de Medicina de Petrópolis, com aquelas encontradas na literatura médica.
OBJETIVOS
Analisar o perfil do respirador bucal no município de Petrópolis, através de uma amostra selecionada no Ambulatório Escola da Faculdade de Medicina de Petrópolis.
MATERIAS E MÉTODOS
Para o levantamento dos dados foram selecionados 54 prontuários que atendiam aos critérios básicos da pesquisa, de um total de 103 de pacientes atendidos no serviço de Otorrinolaringologia do Ambulatório Escola da Faculdade de Medicina de Petrópolis no período de Janeiro de 2004 a fevereiro de 2008. Foi realizada pesquisa respeitando as seguintes variáveis: sexo, idade e etiologias.
Os critérios de inclusão de prontuários na amostra da pesquisa incluíram: prontuários identificados sob CID R 065, dentre estes, foram inclusos apenas os que apresentavam o exame otorrinolaringológico clínico completo com dados conclusivos.
Os critérios de exclusão foram compostos por prontuários de pacientes com Síndrome de Down, prontuários com dados inconclusivos e os que apresentavam respiração bucal devido à obstrução nasal por corpo estranho.
Cada prontuário foi avaliado em relação aos seguintes itens e sub-itens: história clínica, dados dos exames físicos e complementares e diagnósticos firmados.
Dos 54 Prontuários estudados, 24 eram do sexo feminino e 30 do sexo masculino, com idade variando entre 2 e 50 anos, média de 08 anos.
RESULTADOS
Do total de 54 prontuários analisados verificamos como causas: Sinusite Crônica com formações Polipóides, Rinite Alérgica Hipertrófica, Hipertrofia Amigdaliana, Hipertrofia Adenoideana, Obesidade, Desvio de Septo e Hipertrofia de Úvula. Essas aparecem como causas isoladas ou associadas entre si (multifatoriais).
As causas isoladas são: Sinusite Crônica com formações Polipóides que corresponde a 5,56% do total de causas encontradas, Rinite Alérgica, 16,68%, Hipertrofia Adenoideana, 9,26% e Hipertrofia Amigdaliana, 18,52% . A grande maioria corresponde às etiologias multifatoriais, com 49,98% da totalidade (gráfico 1):

Gráfico 1. Relação entre causas isoladas e multifatoriais
As causas multifatoriais apresentam-se nas seguintes associações:
Sinusite Crônica com formações Polipóides e Rinite Alérgica, 3,70% da totalidade dos casos investigados, Sinusite Crônica com formações Polipóides e Hipertrofia Amigdaliana, 1,85%, Sinusite Crônica com formações Polipóides, Rinite e Hipertrofia de Adenóide, 1,85%, Rinite e Hipertrofia Adenoideana, 9,26%, Rinite e Hipertrofia Amigdaliana, 7,40%, Rinite, Hipertrofia Amigdaliana e Adenoideana, 5,56%, Rinite e Obesidade, 5,56%, Hipertrofia Adenoideana, Amigdaliana e Sinusite Crônica com formações Polipóides, 1,85%, Hipertrofia Amigdaliana e Adenoideana, 9,26%, Hipertrofia de Úvula, Desvio de Septo e Obesidade, 1,85% e Sinusite Crônica com formações Polipóides, Rinite alergia, sinusite e Hipertrofias Adenoideana e Amigdaliana, 1,85%.
O gráfico 2 mostra a distribuição das causas com suas respectivas prevalências independente de sua apresentação isolada ou associada.
Gráfico 2. Relação ente a prevalência independente de sua apresentação isolada ou associada.
Outro fator encontrado nesse estudo foi a prevalência dos respiradores bucais correspondente a 37 casos (68,52%) em crianças menores de 10 anos de idade e 17 casos (31,48%) correspondentes aos maiores de 10 anos de idade, conforme mostra o gráfico 3:

Gráfico 3. Prevalência Idade X Respiradores Bucais
DISCUSSÃO
A preocupação com os respiradores bucais se deve ao fato da crença de que um quadro de respiração bucal conduz a uma alteração desfavorável no complexo craniofacial, ocasionando o desenvolvimento de um conjunto de modificações funcionais, dento-alveolares e esqueléticas atribuídas aos indivíduos, denominada de Síndrome da Face Longa. Tal síndrome se caracteriza por apresentar-se clinicamente com mordida aberta postural, narina estreita e subdesenvolvida, lábio superior curto, vestíbulo-versão de incisivos superiores, lábio inferior evertido, expressão facial vaga, arco maxilar estreito, em forma de "V", palato profundo e mal oclusão de Classe II e à presença de mordida cruzada, tonsilas faríngeas e palatinas hipertróficas, mordida aberta anterior, interposição lingual.(Ricketts, 1968).
Segundo a literatura, a causa mais comum da respiração bucal é a obstrução nasal, sendo mais importante ainda quando se trata de crianças, por estarem em crescimento e desenvolvimento. Uma pessoa nunca é exclusivamente respiradora bucal; o que existe é a respiração predominantemente bucal ou mista. (Lusvarghi, 1999).
Muitos são os fatores que podem impedir parcial ou totalmente o fluxo normal pelas vias aéreas superiores, alguns deles são abordados abaixo: - Alterações do septo nasal: promover dificuldade respiratória devido a um estreitamento de uma ou ambas fossas nasais.
- Hiperplasia de adenóides: Adenóide é a proliferação dos tecidos linfáticos, é encontrada na parede posterior da nasofaringe, e quando ela está aumentada pode causar um bloqueio nas vias aéreas impedindo a respiração nasal do paciente.
- Hipertrofia de amígdalas nas classe III e IV ocorre uma hipertrofia na região orofaringeana reduzindo o fluxo aéreo.
- Síndrome da Apnéia do Sono - Obesidade: ocorre por estreitamento com colapsos das grandes vias aéreas superiores, levando à diminuição do fluxo ventilatório, que ativa o centro respiratório devido à hipóxia e acidose orgânica.
- Rinite Alérgica: é um processo inflamatório da mucosa que desencadeia obstrução nasal.
Verificamos que o perfil epidemiológico dos respiradores bucais atendidos no Ambulatórios Escola da Faculdade de Medicina de Petrópolis não tem predomínio por sexo.
Obteve-se grande relevância a variante etária com predomínio na infância, mais precisamente aos 8 anos de idade em média, o que torna mais importante a necessidade de tratamento da doença de base, a fim de limitar as conseqüências negativas no crescimento e desenvolvimento destas crianças.
Devido ao clima úmido, frio e com constantes variações climáticas no município de Petrópolis-RJ, encontramos em nossa casuística, a associação de duas ou mais doenças como a principal causa do respirador bucal. Dentre as causas mistas destacou-se a Rinite Alérgica Hipertrófica (Rinite Perene), a Hipertrofia Amigdaliana e Hipertrofia Adenoidiana.
CONCLUSÕES
A partir da análise comparativa concluímos que a principal etiologia dos respiradores bucais no Ambulatório Escola da Faculdade de Medicina de Petrópolis é multifatorial. Deve-se destacar que, em nosso município, a Rinite Alérgica Hipertrófica mostrou-se com maior prevalência no estudo, o que pode ser explicado pelas condições climáticas. Entretanto, quando analisada a principal causa isolada constata-se que há maior prevalência dos respiradores bucais ocorre em crianças menores de 10 anos de idade, independente do sexo, por Hipertrofia Amigdaliana.
O respirador bucal apresenta inúmeras variações no desenvolvimento maxilofacial, necessitando de acompanhamento multidisciplinar. A multifatoriedade de causas deve ser explorada pelo especialista e analisada caso a caso.
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1. Professor titular em Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina de Petrópolis, RJ.
2. Professora adjunta em Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina de Petrópolis, RJ.
3. Acadêmicas de Medicina do 6º ano da Faculdade de Medicina de Petrópolis.